terça-feira, 7 de outubro de 2008

Entrevista José Barradas

No seguimento do que vi em alguns blogs internacionais (nomeadamente no excelente Touca 14), vou iniciar uma série de entrevistas com alguns árbitros internacionais (ou nacionais de reconhecido mérito), com o objectivo de promover a carreira de árbitro e de incentivar os novos árbitros ou interessados na arbitragem, dando a conhecer a opinião de quem vive esta carreira com paixão.

Depois de ter enviado as questões aos nossos 6 árbitros internacionais (José Barradas, Paulo Ramos, Luís Santos, Raúl Vital, José Tomé e Luís Vital), aqui vos publico a entrevista do primeiro árbitro a aceder em partilhar o seu ponto de vista:

ENTREVISTA JOSÉ BARRADAS
  • Como conheceu o pólo aquático? Foi jogador?
O pólo entrou na minha vida desportiva, quando ainda nadava no SAD, onde tinha como treinador, o saudoso Hermano Patrony. No final de cada treino, desde que nos portássemos bem tínhamos direito a dar uns “toques” de pólo.
Após esse período, fui desafiado pelo Tó Bé, a ir para o CNA, onde se estava a construir uma equipa. Durante 5 anos conciliei a actividade de jogador com a arbitragem.
  • Por que se decidiu tornar árbitro de pólo?
De jogador a árbitro foi um pequeno passo. A arbitragem para mim não era novidade. Mas principalmente o que me motivou a abraçar a arbitragem do pólo foi, o gosto pela modalidade e a expectativa de poder fazer carreira numa modalidade em expansão.
  • Quais os requisitos e características que acha necessárias para ser um bom árbitro de pólo?
Para se ser árbitro, seja de que modalidade for, deve existir uma forte ligação à modalidade.
As características comportamentais e pessoais são fundamentais assim como a capacidade de julgar de uma forma equilibrada e justa.
O auto controlo e a capacidade de abstracção de toda a envolvente exterior são aspectos fundamentais a ter em linha de conta, para que o árbitro possa te uma actuação que, passe despercebida.
O árbitro não deve ser o centro das atenções, deve saber dosear a sua exposição. O árbitro faz parte do jogo e como tal deve ser considerado como um elemento fundamental do espectáculo desportivo.
Ser rigoroso não significa ser ditador, este deve cumprir e fazer cumprir as leis do jogo.
A imagem que o árbitro transmite para o exterior não deve ser confundida com protagonismo.
  • Tendo em vista a necessidade de recrutar e formar novos árbitros, o que acha que pode ser feito nesse sentido?
Tem de existir um trabalho de fundo, devidamente sustentado e estruturado para que os atletas não abandonem definitivamente a modalidade e fiquem ligados á modalidade. Para isso tem de haver um efectivo envolvimento das Associações dos clubes e da Federação através do seu conselho de arbitragem. Quando se forma um novo árbitro, deve existir um acompanhamento e motivação pois caso contrário, ele acaba por desistir quando encontrar a primeira contrariedade. A formação inicial e a continua são fundamentais para “agarrar” os novos árbitros. Apesar de tudo já ter sido ensaiado e tentado é difícil conseguir novos árbitros para a modalidade. Eventualmente efectuando uma abordagem diferente no recrutamento dos candidatos e nas camadas jovens desde a formação fosse possível aumentar o numero de árbitros.
  • Qual foi o jogo mais importante que já apitou?
Todos os jogos são importantes na carreira de um árbitro, contudo uns marcam-nos mais e outros menos. O jogo que mais me marcou na minha carreira, foi a final do Campeonato de Europa em Juniores Femininos em Manchester.
  • Acha que alguma regra do pólo deveria ser mudada/incluída/excluída?
Todas as mudanças efectuadas até agora às regras , foram criteriosas em favor do desenvolvimento da modalidade e do gradual aumento da competitividade e do espectáculo desportivo. Como é lógico esta reflexão aplica-se a países que apresentam um potencial de desenvolvimento diferente de Portugal. O Pólo Português tem de crescer mais e estabelecer objectivos a longo prazo, fazendo apostas fortes nos escalões de formação para que no futuro possa competir ao mais alto nível.
  • Algumas pessoas não vêem com bons olhos o facto de ser árbitro e estar ligado ao movimento associativo/federativo, como encara essas críticas?
A nossa modalidade tem uma história muito curta. O associativismo não está actualmente enraizado na nossa cultura fruto das mudanças sociais operadas na nossa sociedade. A juventude tem o seu tempo demasiadamente ocupado com a escola, com a musica e com o desporto, sobrando pouco tempo para o associativismo para o colectivismo, criando um défice de pessoas disponíveis para abraçar o dirigismo desportivo. Todos estes factores condicionantes fazem com que, no caso da nossa modalidade as pessoas acumulem cargos, o que de certo modo pode induzir numa certa promiscuidade. A alternância seria o mais normal em termos lógicos de jogador, árbitro e dirigente, não necessariamente por esta ordem, mas a realidade demonstra que a grande maioria dos atletas não segue o dirigismo desportivo. Como é evidente o ideal seria a separação de cargos evitando em muitos casos interpretações abusivas e pouco claras. Para nós árbitros é muito mais cómodo e interessante apenas arbitrar e julgar no jogo e não no dirigismo, evitando, conflitos e zonas cinzentas O ideal seria a separação das funções. Quanto às criticas em minha opinião, valem o que valem e aquilo que delas podemos retirar de positivo.
  • O universo do pólo português é minúsculo, todos se conhecem, técnicos, atletas, árbitros, dirigentes e apoiantes. Como encara as reclamações durante os jogos, tendo, ao mesmo tempo, que manter a autoridade de árbitro?
Depende da postura que cada árbitro coloca no seu desempenho. Os árbitros devem ser rigorosos, cumprirem e fazerem cumprir os regulamentos, independentemente de quem estiver dentro de água. O árbitro deve estar preparado para conviver com diferentes grupos e interagir de forma, a que a sua actuação passe despercebida e consiga comunicar com o publico, atletas e treinadores. Um árbitro deve adoptar uma postura construtiva, um estilo agradável e ter um comportamento calmo e com certezas do que esta a fazer. O respeito mutuo entre os diferentes actores do jogo desportivo, não relega para segundo plano a amizade e a sã convivência. O árbitro deve proporcionar um uma comunicação aberta entre os diferentes públicos, jogadores e treinadores, aumentando as relações construtivas no decorrer do jogo.
  • Por que motivos acha que o pólo aquático português se encontra na situação actual? E o que acha que deve ser feito para sair dela?
Não vale a pena tentar arranjar um culpado, vale sim a pena tentar encontrar a solução. E a solução passa por existir mais diálogo entre os diferentes actores envolvidos no pólo português, treinadores, jogadores, dirigentes e árbitros. Tem de existir vontade de todos para alterar o estado actual de desenvolvimento da modalidade, passando por uma maior aposta no desenvolvimento de base e na criação de centros de treino regionais, estruturados e coordenados pela federação.
  • Quais as suas expectativas para o pólo aquático português, a nível internacional, como árbitro e como apoiante?
Lamentavelmente a minha carreira internacional foi abruptamente interrompida, por posições que, enquanto dirigente da Associação de Natação de Lisboa, foram confundidas com a arbitragem. Ao longo de 24 de actividade ligado à arbitragem sempre, cumpri e representei Portugal e a Federação Portuguesa de natação com elevado sentido de responsabilidade, onde nada me pode ser apontado e assim continuarei, desde que me seja permitido. Aqui na realidade as funções de dirigente e árbitro podem ser confundidas, contudo os regulamentos em vigor o permitem, não existindo qualquer incompatibilidade nas funções. É certo que não podemos dissociar a pessoas dos cargos que ocupam, mas se o regulamento o permite, então teremos de ter a inteligência suficiente para o fazer. O futuro a Deus pertence, aguardo na expectativa o meu regresso à carreira internacional, para oportunamente tomar uma decisão quanto à continuidade na arbitragem da modalidade.
  • O que acha que tem que ser feito, a longo prazo, para que o pólo aquático português se torne uma potência?
Não é fácil enquanto existir uma rivalidade entre as diferentes modalidades da natação. Penso que a modalidade só tinha a ganhar se a mentalidade dos diversos intervenientes no fenómeno desportivo se alterasse de modo a permitir uma interacção entre as diferentes modalidades, utilizando as sinergias disponíveis. São muitos os exemplos por essa Europa, de sucesso na modalidade, basta para isso fazer por exemplo o que foi feito aqui ao lado, apostar na formação nas camadas mais jovens. Parar para pensar, elaborar um projecto a longo prazo baseado na formação e em condições de trabalho que permitissem que a modalidade se implementasse de uma forma sustentada com objectivos claros e precisos de desenvolvimento.
  • Pode deixar uma mensagem para a comunidade do pólo aquático português?
Esta é talvez a pergunta mais difícil de responder, mas penso que nesta altura a mensagem seria de esperança no futuro da modalidade.

foto: Rita Taborda FPN

1 comentários:

Anónimo disse...

http://www.ForumPoloPortugal.pt.vu

Agora a comunidade do Polo Aquatico em Portugal ja tem um espaço para debater os temas polémicos sobre a modalidade e ao mesmo tempo fazer evolui-la e criar mais um ponto de comunicação que este desporto tanto precisa.

Visitem o forum e registem-se:)

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