sábado, 29 de março de 2008

Fazer uma casa com ou sem fundações?

Nestes últimos dias tenho estado em alguns torneios e jogos, tenho recebido muita informação sobre a gestão da arbitragem noutros países (alguns até bem menores que Portugal) e, acima de tudo, tenho observado e escutado muito...


Eis os comentários mais frequentes (e o pior é que não são recentes... há quase 20 anos que os ouço):
  • Se eu me for embora isto pára
  • O que vale é que ainda há pessoas que fazem isto por amor à camisola
  • Só andam nisto pelo dinheiro... mercenários
  • Todos falam mas ninguém faz nada - tenho/temos de ser nós a fazer
  • Se for para fazer isso mais vale acabar com a arbitragem
  • Não se pode fazer... as pessoas não vão aceitar
  • Estamos a perder vida pessoal e profissional sem retorno
  • Ninguém reconhece o trabalho que foi feito ou que pode ser feito
  • Estou cansado(a) de andar para aqui a fazer figura de ...
  • etc, etc, etc...
Acreditem que o que me entristece é que isto não é de agora (é um discurso de há muitos anos), não é de uma pessoa (já ouvi em tantas pessoas...) e acima de tudo de uma entidade.
Todos tem grandes ideias, todos são melhores que os outros (até eu devo pensar que vou descobrir a pólvora...), mas a verdade é que se continua a encarar a arbitragem com "carolice". Com amadorismo. E com muito mais amadorismo do que o que se exige às equipas.

Como se justifica que seja uma modalidade que me parece estar em crescimento (muito mais clubes, equipas, escalões, representado a nível nacional), mas que para a arbitragem não haja ninguém que dê a cara (um director técnico como em qualquer modalidade, um "seleccionador", uma equipa de formação e acompanhamento)?
Que trabalhe num projecto completo? Que seja a ligação entre as Associações e a FPFN?
Que esteja disponível a 100% para definir e acompanhar um projecto?
Como justificar que se continuem a fazer convocatórias à semana, mudadas diariamente e muitas vezes até mesmo no dia do jogo... pois nunca (em tantos anos) se pensou em definir um planeamento com o compromisso dos árbitros?
A minha opinião é um pouco radical (assumo isso... mas os que me conhecem... sabem que é assim), mas hoje em dia temos como "classes" de árbitros:
  • As estrelas
  • Os "indispensáveis"
  • Os novatos ("coitadinhos" não percebem nada daquilo)
  • Os salvadores do mundo
  • Os profetas/iluminados
  • Os disponíveis
  • Os curiosos
  • Os entendidos
  • Os especialistas de bancada
  • Os coitadinhos
  • Os "tapa-buracos"
  • etc, etc, etc
Atenção, que todas estas "categorias" ou características são para ser lidas "entre-aspas" pois são as que atribuo ao discurso que ouço de cada pessoa/árbitro que se poderia inserir nelas (deixo ao vosso critério pensarem em quem quiserem em cada categoria).
Pessoalmente, a situação é de simples resolução e já falei algumas vezes nela:
A arbitragem, tal como as equipas e os clubes, deveria ser gerida num formato empresarial, de gestão.
Os árbitros são pessoas responsáveis, que aceitaram e escolheram ser árbitros e que como tal se devem sujeitar a um conjunto de regras e condições claramente estabelecidas. E serem "premiados" no final de cada época de acordo com a sua actuação nessa época (disponibilidade, pontuação de jogos, apresentação e postura, etc...)
Não me venham dizer que penalizar os árbitros que falham vai acabar com a arbitragem!
Se não acaba com o pólo nem as equipas, porque deveria acabar com a arbitragem?!
Pode é acabar com algumas das "classes" de árbitros acima mencionadas e passar a contar só com as pessoas que querem verdadeiramente ser árbitros e contribuir para o desenvolvimento da modalidade!!!
Há um risco - claro!
Os que são os melhores árbitros ou andam nisto há mais anos, podem não gostar ou aceitar a mudança (em qualquer sociedade ou empresa é sempre complicado lidar com a mudança!).

Mas acredito sinceramente que para se poder evoluir e sair da situação actual... se deveria fazer um "format/reset" à arbitragem de pólo aquático nacional.
Definir claramente as regras, regulamentos, pagamentos, formações, categorias, penalizações, equipamentos, funções, pontuações, avaliações, etc, etc, etc.
E responsabilizar os árbitros SEMPRE em vez de procurar "bodes expiatórios" e arranjar desculpas e argumentos.
Ter as convocatórias preparadas com pelo menos 1 mês (com tempo chegaremos aos 3 meses), conhecer a disponibilidade dos árbitros com 3 meses de antecedência, ter os calendários nacionais e regionais conjugados para se poderem nomear os árbitros de acordo com a disponibilidade previamente comunicada e com os tipos de jogos, ter datas fixas de pagamento, ... tanto que se podia fazer... e devia!
E se isso implica pagar a um "gestor" ou a uma ou duas pessoas para garantir a qualidade do que se faz... não é dinheiro mal gasto - é um investimento na qualidade do trabalho futuro da nossa arbitragem!
Se tivermos que fazer uma época com árbitros menos experientes ou "a precisar de mais formação ou acompanhamento"... penso que é um preço a pagar para se chegar a um bom nível na arbitragem e deixarmos de "depender" sempre dos mesmos, ou dos que falham sempre e depois são substituídos à última da hora!

É a velha história de qualquer instituição ou clube:
Queremos ganhar agora, ou formar uma equipa vencedora para o futuro, que seja imbatível?
Apostamos no curto prazo para resultados imediatos e depois "logo se vê" ou apostamos num processo de crescimento sustentado que nos dê reais garantias de crescimento e de resultado a médio e longo prazo?
Queremos continuar a tapar o sol com a peneira, ou vamos pensar nas fundações e trabalhar a partir daí em vez de olharmos só para os buracos do telhado?

Tudo isto implica compromissos de ambas as partes (árbitros, Associações, FPN, clubes, etc...)... mas nas empresas é o que acontece, nos clubes, em todo o lado.
Exigir, mas retribuir.... regras claras e feitas para todos.

Enquanto não consigo ter tempo para desenvolver um projecto mais sustentado... fica o pensamento... para comentarem... como sempre!

7 comentários:

João disse...

sem duvida alguma, concrdo plenamente com quase tudo o que foi dito

Apito na água disse...

Após a leitura cuidada deste post, recordei-me de ir buscar umas informações que recolhi num seminário, reveladoras e que devem ser objecto de reflexão de todos aqueles que, como nós, estão ligados ao movimento desportivo e particularmente à arbitragem de pólo aquático.
Na realidade os comentários mais ouvidos são os que descreves, mas isso tem uma razão objectiva, alguma falta de motivação que envolvem, todo o contexto da arbitragem resultantes de um conjunto de elementos causais, associados entre si e que culminam na sua grande maioria, no desagrado, na desmotivação e nos comentários. Na realidade é um discurso de muitos e longos anos de modalidade.
Não vou aqui, dissertar sobre o passado nem sobre o presente, mas a necessidade de uma reflexão profunda sobre a arbitragem urge, caso contrário corre-se o risco de perdermos alguns árbitros e colocar em causa o futuro da modalidade.
Agora não tenhamos ilusões que,”isto pára…” se alguns se forem embora. Pode não ser por muito tempo mas pára.
A grande maioria anda na arbitragem por que gosta, e na realidade algumas coisas têm de ser feitas. Parece utópico a criação de um director técnico remunerado para a arbitragem, pois não podemos esquecer que existem 3 modalidades distintas na natação. Agora as coisas podem ser invertidas e existir um melhor acompanhamento, se existir vontade e disponibilidade, para se dialogar, para se estabelecerem parcerias entre as diversas associações e respectivos conselhos. Dialogar com os árbitros, simplesmente falar e ouvir.
Voltando um pouco ao inicio desta dissertação, conforme referi as tais informações e apontamentos, resultavam de um estudo, efectuado num universo restrito de árbitros de diferentes modalidades, tendo por principal objectivo conhecer os motivos que levava, os mesmos, a entrar e a manterem-se na arbitragem. Saltando a metodologia do referido estudo, as principais motivações que resultavam para a entrada na carreira de arbitragem apontavam para os seguintes motivos:
- Factores de competência pessoal (intrínsecos), relacionados com a amizade e o divertimento. Factores externos, como por exemplo a influência dos meios de comunicação social e do publico, para além de outros.
- Relativamente a comparações efectuadas entre as modalidades individuais e colectivas, foi referido por grande parte dos inquiridos oriundos das modalidades colectivas a importância de factores extrínsecos.
- Comparando árbitros nacionais e internacionais, verificou-se que os internacionais se encontravam mais enquadrados em aspectos de competência pessoal e divertimento e os nacionais mais ligados a factores extrínsecos.
A motivação dos árbitros prende sobretudo com o prazer de desenvolverem uma actividade no grupo ou na modalidade que praticaram.
Não podemos ver as coisas só do ponto de vista do árbitro internacional, mas sim e principalmente do ponto de vista do árbitro nacional e regional, porque é aí que começam os problemas de desmotivação.
De igual modo não podemos nem devemos esquecer que estamos numa modalidade amadora, em que os árbitros recebem subsídios e não pagamentos, contudo isso não invalida o cumprimento das normas definidas e aceites por todos.
Desagrada-me a adjectivação das “classes” de árbitros, respeito a tua opinião, mas não me parece a forma mais correcta de abordar o tema.
Não podemos gerir a arbitragem como um empresa, caso contrario teríamos árbitros profissionais, remunerados, o que não invalidade que a mesma seja gerida com rigor, com regras, com direitos e com deveres de ambas as partes envolvidas, mesmo que isso inclua penalizações. Mas para existirem penalizações tem de existir regulamentação e organização.
Efectivamente, … por morrer uma andorinha não acaba a primavera, mas se morrerem algumas a primavera torna-se atípica. O pólo não acaba, os clubes, os dirigentes os árbitros, esses acabam.
Mas caros amigos não devemos, ficar demasiado deslumbrados por modelos de gestão, que, acima de tudo pretendem a eficiência a qualquer preço. As organizações são constituídas por pessoas e é com elas que se deve contar e para isso é importante ouvi-las, saber quais as sua dificuldades, quais as suas competências qual o seu valor, a arbitragem é disso exemplo. Não podemos catalogar as pessoas nem prescindir delas sob qualquer pretexto e a troco de autoritarismos demagógicos e doentios.
Pessoalmente não gosto muito de mudanças, mas se forem para o bem da organização, para a sua eficácia e consequente eficiência dos seus recursos, é sempre bem vinda. Desde que, acautelando todo o seu processo de desenvolvimento assente em premissas devidamente fundamentais e objectivas, caso contrário ficaremos parados no tempo.
A mudança implica fundamentalmente visão estratégica, uma missão assente em valores, humanos e de desenvolvimento.
Para que exista mudança, a organização deve definir qual o modelo e difundi-lo com os seus colaboradores numa óptica abrangente e não divergente, por mais regulamentos que se façam por mais leis que se apliquem, se não existir compromisso de ambas as parte e envolvimento, não se chega a lado algum. E acima de tudo temos de mudar as mentalidades, dos dirigentes de topo e dos executantes, onde se inclui os árbitros.
È completamente utópico para não dizer irreal, gerir a arbitragem à imagem das organizações que não desportivas, esquecendo que as pessoas arbitram por gostarem e não há espera de uma remuneração efectiva, caso contrário corremos o risco de ter uma actividade desportiva de elite e com toda a certeza não é isso que pretendemos.
Em tudo na vida existe risco, o simples facto de se ir apitar um jogo um risco, contudo controlado e perfeitamente contextualizado no seio das regras.

JB

Arbitragemwppt disse...

Como disse anteriormente, trata-se de uma opinião pessoal e talvez um pouco radical, mas passo a esclarecer alguns aspectos que, repito, na minha opinião pessoal, contribuem para a situação actual.
Um deles será a tal resistência à mudança de que se fala num dos comentários. A maioria das pessoas receia a mudança e é muito resistente a ela, mas com o evoluir das situações e da realidade... ela torna-se indispensável.
O segundo aspecto relaciona-se com a "profissionalização". Hoje em dia em Portugal há muito poucas modalidades Profissionais, sendo que quase todas são amadoras. No entanto nota-se a diferença de gestão em clubes e entidades que gerem a sua actividade seguindo um modelo empresarial e as que fazem uma gestão amadora.
Não vou aqui falar de modelos de gestão empresarial, mas há que reconhecer que hoje em dia (e cada vez mais) o facto de se falar de modelo de gestão empresarial não significa que não se conte com as pessoas e as suas motivações. Antes pelo contrário... nos modelos de gestão de sucesso a enfâse da gestão é dada nas pessoas. O que se faz é responsabilizar as pessoas tal como se responsabiliza a empresa - e é isso que defendo para a arbitragem.
Por isso defendo que se deve aplicar um modelo de gestão claro na arbitragem, em que não só estejam bem definidos os direitos e deveres de cada participante, como igualmente os planos de formação e devida acompanhação, panos de evolução, prémiuos e penalizações, etc.
Há que dar credibilidade. Quem cá anda por gosto pela modalidade e pela arbitragem não terá nenhum problema com este tipo de gestão - no fundo será só dar um pouco de disciplina e organização - e COMUNICAÇÃO.
Quando falo de "um director técnico" (com o cuidado de colocar entre aspas pois não seria este o nome a dar... no caso de se justificar) falo de seguir os modelos de outras modalidades e países onde existem pessoas que trabalham a tempo inteiro ou parcial para uma boa gestão da arbitragem.
Hoje em dia a nossa arbitragem vive da boa vontade de pessoas qe abdicam da sua vida pessoal e muitas vezes profissional para tentarem dar um rumo à arbitragem... mas mais uma vez isto é visão de curto prazo e calramente insuficiente.
E quando não houver mais ninguém que queira abdicar da sua vida e do seu tempo por algo que é sempre contestado?
Aproveito para fazer um pequeno à-parte e esclarecer que existem pelo menos 6 modalidade (para não falar nas submodalidades) identificadas na Federação (e não 3) - Natação, Pólo Aquático, Saltos, Natação Sincronizada, Masters e Águas Abertas.
Continuando... o facto de os árbitros receberem subsídios em vez de salários não significa que não tenham direitos e DEVERES. Não é o facto de se disciplinar a modalidade que vai fazer com que sejam profissionais.
Vai é certamente garantir que ficamos com os que se querem dedicar à modalidade por qualquer motivo (intrínseco ou extrínseco á modalidade) e que os outros chegarão á conclusão que estão desenquadrados de uma forma eficiente de fazer as coisas.
Penso que chega de tratarmos o pólo e a arbitragem como algo amador e que vive da boa vontade e está na altura de se colocar ordem na casa e criar uma boa estrutura... para que quem venha atraás não tenha sempre de andar a apanhar os bocados que sobraram e possa ter algo construido e claro, bem definido para o futuro.
Quanto a gerir a arbitragem como uma organização não desportiva ser utópico... por favor!!!
O Real Madrid é uma entidade desportiva, a Federação de Futebol e mesma a de Natação são Instituições, os clubes de pólo aquático internacionais são entidades desportivas e ... mal deles se não fossem geridos com um formatop de gestão empresarial... nunca sairiam da cepa torta.
Penso que não se deve confundir as coisas e um modelo de gestão empresarial tem tantas variantes e componentes que chamar a isso utopia é... utópico.
Para informação... na nossa vida diária e na gestão das contas da casa e das despesas mensais... usamos modelos de gestão económicos e empresariais...

Anónimo disse...

Isso a mim parece-me um caso que assisti, á uns anos atrás quando resolveram colocar uma pessoa afastada do pólo, á muitos anos para fazer de Delegado aos jogos.Foi bem pago, controverso, e... desnecessário, pois as coisas só melhoraram p/ ele, e não para a classe dos árbitros.Isso a mim, quere-me parecer mais uma criação de lobbies, para algumas pessoas....
LoveWP

Arbitragemwppt disse...

Olá anónimo
Se leres o texto vai reparar que não falo de Delegados e muito menos de pessoas afastada da modalidade.
O que falo é que é preciso criar uma estrtura, uma organização (que hoje não existe), para que as coisas funcionem de forma correcta e não com base na boa vontade de alguns.
Não há aqui nenhum objectivo de colocar alguém a comandar ou avaliar os outros árbitros... apenas criar regras de gestão.
Quanto ao que se passou há alguns anos... é passado! Deve ser visto como uma lição para se aprender com os erros e não como um travão para que se avance :-)
E o objectivo de se organizarem as coisas é exactamente o contrário de criar um lobbie (isso existe quando não há estruturação das coisas e regras claramente definidas... ou se trabalha com base na boa vontade de alguns...)
Não achas que chega de guerras e guerrinhas e lobbies e lados que prjudiam é os árbitros, a arbitragem, os clubes, atletas e a modalidade?
De qualquer forma obrigada por partilhares a tua visão

Anónimo disse...

Atenção arbitragemwppt, as guerrinhas continuam, os lobbies estão lá, os árbitros continuam a ser o elo mais fraco...e de quem é a culpa???
O problema só será resolvido quando houver sangue novo, pessoas novas que nunca tiveram ligados á FPN...aí sim poderá haver mudança.
LOVEWP

Arbitragemwppt disse...

Bom dia
Eu sei que tens razão... mas eu continuo a ser idealista (já nem é defeito... é feitio) e a a creditar que com vontade, organização e disciplina se conseguem mudar as coisas e fazer avançar tudo... mas mudar... é dificil e as pessoas nao gostam...
vamos ver se servimos para alguma coisa :-)

bjs